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Toscana em 5 dias: um roteiro entre vinhos, vilarejos medievais e algumas das paisagens mais bonitas da Itália

Foto do escritor: Nathalia Braga
Nathalia Braga
27 de abr.
18 min de leitura

Atualizado: 3 de ago.

Na Toscana, o destino importa. Mas é entre uma cidade e outra que a viagem realmente acontece.


Eye-level view of a lush green forest with sunlight filtering through the trees
Val d'Orcia: o cartão postal da Toscana

Existem lugares que impressionam pelos monumentos. Outros pela gastronomia. A Toscana conquista de uma forma diferente: pelas estradas cercadas de ciprestes, pelos vinhedos que acompanham a paisagem por quilômetros e pelo ritmo desacelerado que transforma cada parada em parte da viagem.


Minha primeira passagem pela região aconteceu em 2016. Na época, conheci cidades como Siena, Montalcino, Arezzo, Pisa e Lucca, mas foi apenas anos depois, retornando com mais tempo e percorrendo o Val d'Orcia e o Chianti de carro, que compreendi a verdadeira essência da Toscana.


Ali, o vinho faz parte da cultura local, os pequenos vilarejos preservam séculos de história e a gastronomia está profundamente ligada ao território. Não é uma viagem para correr entre atrações, mas para dirigir sem pressa, almoçar em uma trattoria familiar, visitar vinícolas históricas e descobrir paisagens que parecem ter saído de um filme.


Este roteiro reúne o melhor das minhas duas viagens e passa por Montalcino, Val d'Orcia, Montepulciano, Pienza, Siena, San Gimignano, Volterra e Chianti, além de uma sugestão de bate-volta para Lucca e Pisa para quem tiver mais um dia disponível.


O ritmo deste roteiro


Este roteiro foi pensado para ser feito de carro, permitindo explorar estradas panorâmicas, pequenas vinícolas e cidades medievais no seu próprio ritmo. As distâncias entre os destinos são curtas, mas a beleza do caminho faz com que cada trajeto se torne parte da experiência. Muitas vezes, você vai querer parar para fotografar uma paisagem ou simplesmente apreciar a vista.


Ao dirigir pelas cidades históricas da Toscana, porém, é importante estar atento às ZTL (Zone a Traffico Limitato), áreas onde a circulação de veículos é restrita para moradores e monitorada por câmeras. Entrar nessas zonas sem autorização, ou com carros alugados, pode resultar em multas enviadas mesmo após o retorno da viagem. Por isso, sempre utilize os estacionamentos sinalizados para visitantes, normalmente localizados próximos aos centros históricos, e continue o restante do percurso a pé. Além de evitar problemas, essa é a melhor maneira de conhecer as cidades, que foram feitas para serem exploradas caminhando.


Onde faz sentido se hospedar


Minha sugestão é dividir a hospedagem entre duas cidades.


Passe os primeiros dias em Montalcino, excelente base para explorar o Val d'Orcia, e depois siga para Siena, que oferece uma localização estratégica para conhecer San Gimignano, Volterra e a região do Chianti. Foi exatamente essa divisão que fiz em 2024 e ela tornou os deslocamentos muito mais tranquilos.


Caso você tenha mais tempo na região, sugiro se hospedar na região de Florença para conhecer Pisa e Luca, cidades fora da rota dos vinhos, mas que também tem paisagens espetaculares.


Dia 1 - Montalcino: onde nasceu o Brunello


Antes mesmo de se tornar um dos destinos mais desejados pelos amantes do vinho, Montalcino já ocupava um lugar importante na história da Toscana.


Fortezza di Montalcino
Fortezza di Montalcino

Construída no alto de uma colina a cerca de 560 metros de altitude, a cidade ganhou relevância ainda na Idade Média por sua posição estratégica entre Siena, Florença e Roma. Cercada por muralhas e dominada pela imponente Fortezza di Montalcino, do século XIV, preserva até hoje o aspecto de um autêntico vilarejo medieval, com ruas estreitas de pedra, pequenas praças e construções históricas que parecem pouco alteradas pelo tempo.


Apesar do tamanho compacto, Montalcino tornou-se mundialmente conhecida graças ao Brunello di Montalcino, considerado um dos vinhos mais prestigiados da Itália.



Sua história começa na segunda metade do século XIX, quando Clemente Santi e, posteriormente, seu neto Ferruccio Biondi Santi, decidiram produzir um vinho utilizando exclusivamente uma seleção da uva Sangiovese Grosso. Em uma época em que era comum misturar diferentes variedades, a decisão foi revolucionária. O resultado foi um vinho de grande estrutura, capaz de envelhecer por décadas e expressar de forma única o terroir de Montalcino.


Em 1980, o Brunello tornou-se um dos primeiros vinhos italianos a receber a classificação DOCG (Denominazione di Origine Controllata e Garantita), o mais alto reconhecimento concedido aos vinhos produzidos na Itália. Hoje, seu nome é sinônimo de excelência e atrai visitantes do mundo inteiro para essa pequena cidade cercada por vinhedos.


Degustação de Brunellos di Montalcino no Castello Banfi
Degustação de Brunellos di Montalcino no Castello Banfi

Depois do check-in, aproveite para explorar o centro histórico a pé. Caminhe até a Piazza del Popolo, observe o Palazzo dei Priori, percorra as pequenas enotecas espalhadas pelas ruas medievais e visite a Fortezza di Montalcino, de onde se tem uma das vistas mais bonitas sobre o Val d'Orcia e as colinas cobertas por vinhedos.



Visita às caves no Castello Banfi
Visita às caves no Castello Banfi

Reserve a tarde para visitar o Castello Banfi, uma das vinícolas mais reconhecidas da região. Cercada por extensos vinhedos, a propriedade combina tradição e inovação, oferecendo uma experiência completa que inclui visita às caves, explicações sobre o processo de produção e degustação de diferentes rótulos. Mesmo para quem não é um grande conhecedor de vinhos, é uma excelente introdução à cultura vitivinícola da Toscana. Caso você queira provar uma a culinária clássica da região, sugiro reservar o restaurante La Taverna que fica dentro da propriedade do Castello Banfi.





Agora se você for amante da alta gastronomia, reserve uma mesa para jantar no Campo del Drago, restaurante com duas estrelas Michelin do hotel Rosewood Castiglion del Bosco.

Menu degustação no Campo Del Drago
Menu degustação no Campo Del Drago

Localizado em uma das propriedades mais emblemáticas da região, o restaurante oferece uma interpretação contemporânea da cozinha toscana em um cenário cercado por vinhedos. É uma forma memorável de iniciar a viagem e mergulhar, desde o primeiro dia, na identidade gastronômica da Toscana.


The Travel Tip: Programe a visita ao centro histórico de Montalcino para o fim do dia. Quando os grupos de excursão já foram embora e a luz dourada do pôr do sol ilumina as muralhas e os vinhedos, a cidade revela um dos momentos mais bonitos e tranquilos de todo o roteiro.




Dia 2 - Val d'Orcia: a Toscana dos cartões-postais


Este é um dos dias mais bonitos da viagem. A estrada entre Montalcino, Pienza e Montepulciano atravessa o Val d'Orcia, região reconhecida como Patrimônio Mundial da UNESCO desde 2004. As colinas onduladas, os ciprestes alinhados, as fazendas de pedra e os campos cultivados formam uma paisagem tão emblemática que se tornou o cartão-postal da Toscana e cenário de diversos filmes.


Mais do que belas vistas, o Val d'Orcia representa séculos de convivência harmoniosa entre o homem e a natureza, preservando uma paisagem agrícola praticamente inalterada desde o Renascimento.


Pienza: a cidade ideal do Renascimento



Ruas de Pienza
Ruas de Pienza

A primeira parada do dia é Pienza, uma pequena cidade que mudou a história do urbanismo europeu. Originalmente chamada Corsignano, ela foi completamente transformada no século XV por iniciativa do Papa Pio II, que desejava converter sua cidade natal na cidade ideal do Renascimento. O projeto foi conduzido pelo arquiteto Bernardo Rossellino e transformou Pienza em um dos primeiros exemplos de planejamento urbano renascentista, onde praças, edifícios e ruas foram desenhados para criar uma cidade harmoniosa.


Hoje, caminhar por Pienza é descobrir pequenas ruas de pedra, varandas floridas e mirantes com vista para o Val d'Orcia. Reserve um tempo para visitar a Piazza Pio II, o Duomo, o Palazzo Piccolomini e percorrer a elegante Corso Rossellino, principal rua da cidade.


Na hora do almoço, faça uma parada no Sperone Nudo, um restaurante intimista que valoriza ingredientes locais e releituras da cozinha toscana. É um ótimo lugar para experimentar pratos preparados com o tradicional Pecorino di Pienza, queijo de leite de ovelha produzido na região há séculos.


Antes de seguir viagem, aproveite para passear pelas pequenas lojas especializadas em queijos, azeites e produtos artesanais.


Montepulciano: entre palácios renascentistas e adegas centenárias


À tarde, siga para Montepulciano, uma elegante cidade medieval construída sobre uma colina entre os vales de Val d'Orcia e Val di Chiana.


Enoteca com diversos rótulos do Vino Nobile di Montepulciano
Enoteca com diversos rótulos do Vino Nobile di Montepulciano

Seu centro histórico é marcado por palácios renascentistas, igrejas monumentais e ruas íngremes que conduzem até a Piazza Grande, considerada o coração da cidade. Ao longo do caminho, diversas adegas históricas ocupam antigos subterrâneos escavados na rocha, utilizados há séculos para o envelhecimento dos vinhos.


Montepulciano é a terra do Vino Nobile di Montepulciano, um dos rótulos mais antigos da Itália. Produzido principalmente com a uva Prugnolo Gentile, uma variedade local da Sangiovese, ele já era apreciado pela aristocracia italiana durante o Renascimento.


Uma curiosidade interessante é que o nome do vinho costuma gerar confusão: o Vino Nobile di Montepulciano recebe esse nome por ser produzido na cidade de Montepulciano, e não pela uva Montepulciano, cultivada principalmente nas regiões de Abruzzo e Marche.


Ciprestes alinhados que fazem parte das representações clássicas da Toscana em filmes e series
Ciprestes alinhados que fazem parte das representações clássicas da Toscana em filmes e series

Reserve um tempo para visitar uma das adegas históricas da cidade e caminhar sem pressa pelas ruas até chegar ao tradicional Caffè Poliziano. Fundado em 1868, o café preserva salões elegantes em estilo Liberty e um terraço com vista para as colinas da Toscana. É o lugar perfeito para fazer uma pausa com um espresso, um doce italiano ou uma taça de vinho antes de continuar a viagem.


The Travel Tip: Se o tempo permitir, faça o trajeto entre Pienza e Montepulciano pelas estradas secundárias, em vez da rota mais rápida indicada pelo GPS. É nesse trecho que estão alguns dos cenários mais fotografados da Toscana: fileiras de ciprestes, pequenas capelas isoladas, vinhedos e campos que mudam de cor ao longo das estações.


Muitas vezes, a melhor lembrança do dia não será uma cidade, mas a paisagem encontrada entre elas.


Dia 3 - Siena: a cidade do Palio


Poucas cidades italianas preservam tão bem a atmosfera medieval quanto Siena.


Piazza del Campo: símbolo da atmosfera medieval de Siena
Piazza del Campo: símbolo da atmosfera medieval de Siena

Entre os séculos XII e XIV, ela foi uma das cidades mais ricas e influentes da península, enriquecendo graças ao comércio e às atividades bancárias. Durante esse período, tornou-se a principal rival de Florença, disputando poder político, econômico e militar na Toscana.


O resultado é uma cidade que parece ter parado no tempo. Suas ruas estreitas de pedra, edifícios de tijolos avermelhados e pequenas vielas conduzem a uma das praças mais bonitas da Europa.


Comece a visita pela Piazza del Campo, considerada o coração de Siena. A praça simboliza o antigo governo da cidade e continua sendo o principal ponto de encontro dos moradores.


É aqui que acontece, desde o século XVII, o Palio di Siena, uma das tradições mais antigas da Itália. Realizada duas vezes por ano, a corrida reúne as 17 contrade, bairros históricos que mantêm até hoje bandeiras, brasões, museus e um forte sentimento de pertencimento. Mais do que uma competição, o Palio é parte da identidade cultural da cidade e mobiliza gerações de famílias sienesas.


Fachada da Duomo Di Siena
Fachada da Duomo Di Siena

A poucos minutos dali está o Duomo di Siena, considerado um dos exemplos mais impressionantes da arquitetura gótica italiana. Sua fachada em mármore branco, verde e rosa contrasta com o interior ricamente decorado, onde obras de artistas como Donatello, Michelangelo, Pinturicchio e Nicola Pisano ajudam a contar a história da arte italiana. Compre o ticket que da acesso ao Panorama dal Facciatone, no complexo do Museo dell'Opera del Duomo. O terraço oferece uma vista privilegiada sobre os telhados de Siena e revela um detalhe curioso da história local: a estrutura inacabada da chamada Nova Catedral, um projeto grandioso interrompido pela Peste Negra de 1348, que reduziu drasticamente a população da cidade e mudou para sempre o seu destino.


Depois da visita ao centro histórico, caminhe até a Fortezza Medicea, construída no século XVI após a conquista de Siena por Florença. Hoje transformada em parque público, ela oferece uma perspectiva diferente da cidade e rende fotos incríveis da cidade.



As trufas negras frescas que acentuam os sabores da culinária Toscana
As trufas negras frescas que acentuam os sabores da culinária Toscana

Para encerrar o dia, reserve uma mesa na Antica Osteria da Divo, um dos restaurantes mais emblemáticos de Siena. Instalado em antigas cavernas etruscas escavadas na rocha há mais de dois mil anos, o restaurante combina um ambiente histórico com uma cozinha que valoriza ingredientes sazonais e receitas tradicionais da Toscana. É um daqueles lugares em que gastronomia e patrimônio caminham lado a lado, tornando a experiência tão memorável quanto a própria visita à cidade.


The Travel Tip: vale a pena começar o dia cedo. Siena recebe muitos visitantes em excursões de bate-volta, principalmente no período entre o fim da manhã e o meio da tarde. Caminhar pela Piazza del Campo logo após a abertura dos cafés ou permanecer na cidade até o início da noite permite vivenciar um lado mais tranquilo e autêntico, quando os moradores voltam a ocupar as ruas e a atmosfera medieval se torna ainda mais evidente.


Dia 4 - San Gimignano e Volterra: das torres medievais ao legado etrusco


Se os dias anteriores foram dedicados ao vinho e às grandes cidades medievais, este roteiro mostra duas das facetas mais fascinantes da Toscana: o poder das antigas famílias mercantes e as raízes da civilização etrusca. Embora estejam separadas por poucos quilômetros, San Gimignano e Volterra possuem identidades completamente diferentes, tornando esse um dos dias mais diversos da viagem.


San Gimignano: a cidade das torres



Detalhes da Manhattan medieval
Detalhes da Manhattan medieval

Vista de longe, San Gimignano parece surgir no horizonte como uma pequena Manhattan medieval. Entre os séculos XII e XIII, famílias nobres disputavam prestígio construindo torres cada vez mais altas como demonstração de riqueza e poder. Das cerca de 70 torres erguidas naquele período, 14 permanecem preservadas, formando uma das paisagens urbanas mais emblemáticas da Itália.


Graças ao excelente estado de conservação de seu centro histórico, San Gimignano foi reconhecida como Patrimônio Mundial da UNESCO e continua encantando visitantes com ruas de pedra, pequenas praças e edifícios praticamente inalterados desde a Idade Média.


Comece a visita pela Piazza della Cisterna, considerada o coração da cidade, e siga até a Piazza del Duomo, onde estão a Catedral e o Palazzo Comunale. Se tiver disposição, suba à Torre Grossa, a mais alta da cidade, para admirar uma vista panorâmica das colinas toscanas.


Parada obrigatória em San Gimignano: o gelato mais famoso da Toscana
Parada obrigatória em San Gimignano: o gelato mais famoso da Toscana

Depois de explorar o centro histórico, reserve o almoço no Ristorante Da Pode. Localizado a poucos minutos das muralhas de San Gimignano, o restaurante ocupa uma antiga casa de fazenda toscana e possui um terraço com vista para um dos cenários mais emblemáticos da região, cercado por vinhedos, oliveiras e fileiras de ciprestes. Vale a pena reservar uma mesa na área externa para aproveitar a paisagem com calma.


Antes de seguir viagem, faça uma parada na Gelateria Dondoli, localizada na Piazza della Cisterna. Vencedora de diversos campeonatos internacionais de gelato, ela é conhecida por sabores criativos preparados com ingredientes da região, como açafrão, Vernaccia e frutas locais.


Volterra: a herança etrusca da Toscana



Detalhes da muralha na Porta all'arco
Detalhes da muralha na Porta all'arco

A cerca de 40 minutos de San Gimignano está Volterra, uma das cidades mais antigas da Toscana.


Muito antes do domínio romano, Volterra já era uma das principais cidades da civilização etrusca, povo que ocupou grande parte da Itália Central entre os séculos VIII e III a.C. Vestígios dessa época ainda podem ser vistos nas muralhas, na Porta all'Arco e no Museu Etrusco Guarnacci, que abriga uma das coleções mais importantes do país.


Durante a Idade Média, a cidade prosperou graças à exploração do alabastro, uma pedra translúcida utilizada até hoje na produção artesanal de esculturas e objetos decorativos. Caminhando pelo centro histórico, é comum encontrar pequenas oficinas familiares mantendo viva essa tradição secular.


Reserve algumas horas para explorar as ruas estreitas, visitar a Piazza dei Priori, considerada uma das praças medievais mais antigas da Itália, e apreciar a atmosfera mais tranquila da cidade, muito diferente do movimento encontrado em San Gimignano.


No retorno a Siena, encerre o dia na Osteria Le Logge, um dos restaurantes mais tradicionais da cidade. Instalada em um antigo armazém do século XV, a Osteria Le Logge combina ambiente elegante, serviço impecável e uma cozinha que valoriza ingredientes sazonais e produtores locais. O menu muda conforme a estação, mas pratos preparados com trufas, carnes da região e massas frescas costumam estar entre os destaques.


The Travel Tip: se estiver procurando uma lembrança da viagem, deixe para comprar em Volterra. Enquanto muitas lojas de San Gimignano são voltadas ao turismo, Volterra mantém uma tradição artesanal centenária ligada ao alabastro. É um dos poucos lugares da Toscana onde ainda é possível encontrar oficinas familiares produzindo peças à mão, muitas vezes com os próprios artesãos trabalhando diante dos visitantes.


Dia 5 - Chianti: a alma da Toscana


Se existe uma região que resume a essência da Toscana é Chianti. Esse território é conhecido pelas colinas cobertas por vinhedos, pequenas estradas sinuosas, vilarejos medievais e algumas das vinícolas mais tradicionais da Itália. Aqui, o vinho não é apenas um produto local: ele faz parte da identidade da paisagem e da cultura.


Chianti Classico: o vinho que faz parte da identidade e da cultura da região
Chianti Classico: o vinho que faz parte da identidade e da cultura da região

O símbolo da região é o Chianti Classico, produzido exclusivamente em uma área delimitada entre as províncias de Florença e Siena. Sua origem remonta ao século XVIII, quando o Grão-Duque Cosimo III de' Medici definiu oficialmente essa área como uma das primeiras zonas vinícolas regulamentadas do mundo. Até hoje, as garrafas produzidas nessa região são identificadas pelo tradicional selo do Gallo Nero, o galo preto, emblema histórico do Consorzio Chianti Classico.


Mais do que visitar vinícolas, conhecer Chianti é dirigir sem pressa por estradas panorâmicas onde praticamente cada curva revela uma nova paisagem.





Greve in Chianti: a porta de entrada do Chianti Classico


Comece o dia em Greve in Chianti, considerada a principal porta de entrada da região.

A cidade se desenvolveu como um importante centro comercial para os produtores de vinho e, ainda hoje, preserva sua charmosa Piazza Matteotti, cercada por arcadas, cafés, lojas especializadas e pequenas enotecas.


Reserve um tempo para visitar a tradicional Enoteca Falorni, uma das maiores enotecas da Toscana, com centenas de rótulos produzidos na região. Mesmo para quem não pretende comprar vinhos, a degustação por taça é uma excelente oportunidade para conhecer diferentes estilos de Chianti Classico.



O chef Dario Cecchini em ação, preparando a tradicional Bistecca alla Fiorentina
O chef Dario Cecchini em ação, preparando a tradicional Bistecca alla Fiorentina

Em seguida, há 10 minutos de carro, chegamos na pequena cidade de Panzano in Chianti para a experiência mais tradicional da Toscana.


Poucos restaurantes representam tão bem a gastronomia local quanto a Officina della Bistecca. Comandado pelo carismático açougueiro Dario Cecchini, considerado uma das personalidades mais conhecidas da culinária italiana que ficou mundialmente famoso por sua filosofia de respeito total ao animal e uso integral dos cortes.


O restaurante transformou a tradicional Bistecca alla Fiorentina em uma verdadeira experiência gastronômica que foi registrado no segundo episódio da sexta temporada da serie Chef's Table no Netflix.


O menu é servido em formato degustação, com diferentes cortes preparados na brasa e acompanhamentos simples que valorizam a qualidade da carne. O ambiente é descontraído, comunitário e cheio de personalidade, refletindo o espírito acolhedor da região. Recomendo a visita para os amantes da carne que apreciem cortes malpassados. O restaurante é super concorrido, sendo necessário reserva com bastante antecedência.


Antinori del Chianti Classico
Antinori del Chianti Classico

À tarde, siga para um dos lugares que mais me impressionaram em toda a viagem: a Antinori nel Chianti Classico.


Poucas famílias têm uma história tão ligada ao vinho quanto os Antinori, que produzem rótulos na Toscana há mais de 600 anos, desde 1385. São 26 gerações dedicadas à viticultura, ajudando a construir a reputação internacional dos vinhos italianos.


Entre os muitos rótulos produzidos pela família, o mais emblemático é o Tignanello. Lançado na década de 1970, ele revolucionou a viticultura italiana ao romper com as regras tradicionais da época. Foi um dos primeiros vinhos da Toscana a utilizar uvas não autorizadas pela denominação oficial, como Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc, ao lado da Sangiovese, além de dispensar o uso das uvas brancas que então eram obrigatórias nos vinhos Chianti. O resultado foi um vinho tão inovador que ajudou a criar a categoria dos chamados "Super Toscanos", hoje reconhecida mundialmente como um símbolo da excelência italiana.


Detalhes em ferro e madeira da vinícola que virou referência mundial em arquitetura
Detalhes em ferro e madeira da vinícola que virou referência mundial em arquitetura

Em 2012, a família inaugurou uma nova vinícola que rapidamente se tornou uma referência mundial em arquitetura. Projetado pelo escritório Archea Associati, o edifício foi integrado às colinas do Chianti de forma quase invisível. Mesmo para quem não é apaixonado por vinhos, a visita impressiona pelo equilíbrio entre tradição, design e inovação. O percurso pelas caves, as passarelas suspensas e o terraço panorâmico mostram como arquitetura e enologia contam a mesma história. É também a oportunidade de conhecer de perto o universo de rótulos icônicos, como o Tignanello, que redefiniu a forma como o mundo passou a enxergar os vinhos da Toscana.




Se ainda houver tempo antes de retornar a Florença, faça uma breve parada na Badia a Passignano. Fundada no século XI, a abadia beneditina continua cercada por vinhedos e oliveiras, preservando uma atmosfera de tranquilidade que parece resumir tudo o que a Toscana representa. É um daqueles lugares onde vale a pena simplesmente caminhar alguns minutos, observar a paisagem e encerrar a viagem sem pressa.


The Travel Tip: a melhor fotografia da Toscana talvez não esteja em uma cidade, mas na estrada entre elas. Percorra a Chiantigiana sem pressa e permita-se parar quando a paisagem chamar sua atenção. Os trechos entre Greve, Panzano e Badia a Passignano concentram alguns dos cenários mais emblemáticos da região: vinhedos desenhando as colinas, ciprestes alinhados e antigas casas de pedra. Na Toscana, muitas vezes é a estrada, e não o destino, que rende a lembrança mais inesquecível.


Dia extra - Lucca e Pisa: o epílogo perfeito da viagem


Se você tiver mais um dia disponível, vale a pena incluir um bate-volta saindo de Florença para Lucca e Pisa, duas cidades que conheci na minha primeira viagem pela Toscana e que complementam muito bem este roteiro.


Enquanto Lucca convida a desacelerar, caminhar sem rumo e descobrir pequenas praças escondidas, Pisa impressiona por reunir um dos conjuntos arquitetônicos mais emblemáticos da Itália.


Lucca: a cidade das muralhas renascentistas


Diferente de boa parte das cidades medievais italianas, Lucca preservou praticamente intactas suas muralhas renascentistas. Construídas entre os séculos XVI e XVII para proteger a cidade, elas nunca precisaram cumprir sua função militar e, por isso, permanecem em excelente estado de conservação.


Hoje, o antigo sistema defensivo foi transformado em um parque arborizado que circunda todo o centro histórico e se tornou um dos lugares mais agradáveis para caminhar ou alugar uma bicicleta. Dentro das muralhas, Lucca revela uma atmosfera tranquila, quase residencial, distante do ritmo das cidades mais visitadas da Toscana.


Percorra a Via Fillungo, principal rua do centro histórico, descubra pequenas boutiques independentes, cafés e delicatessens e siga até a curiosa Piazza dell'Anfiteatro. Construída sobre as ruínas de um anfiteatro romano do século II, sua forma elíptica preserva exatamente o desenho da antiga arena, hoje ocupada por restaurantes e edifícios coloridos.


Outro símbolo da cidade é a Torre Guinigi, famosa pelo pequeno jardim com carvalhos plantados em seu topo. Depois de subir seus mais de 200 degraus, a recompensa é uma das vistas mais bonitas sobre os telhados de Lucca.


Pisa: muito além da Torre Inclinada


À tarde, siga para Pisa. Embora a cidade seja mundialmente conhecida pela Torre Inclinada, ela merece ser visitada pelo conjunto monumental do qual a torre faz parte.

A Piazza dei Miracoli, reconhecida como Patrimônio Mundial da UNESCO, reúne quatro obras-primas da arquitetura medieval: a Catedral, o Batistério, o Camposanto Monumentale e a famosa torre sineira, cuja inclinação começou ainda durante sua construção, no século XII, devido ao solo instável.


Subir à Torre de Pisa continua sendo uma experiência única. A leve inclinação é perceptível durante toda a subida e a vista do topo oferece uma perspectiva privilegiada sobre a praça e os telhados da cidade.


Se houver tempo, caminhe também pelas margens do rio Arno. Longe da movimentação turística da Piazza dei Miracoli, Pisa revela uma cidade universitária vibrante, com cafés, livrarias e uma atmosfera muito diferente daquela que a tornou famosa.


Se estiver de carro entre Siena e Florença, aproveite também para fazer uma parada no Space Prada ou no The Mall Firenze, dois dos outlets mais procurados da região para quem deseja incluir compras de marcas de luxo na viagem.


The Travel Tip: a maioria dos visitantes passa apenas algumas horas em Pisa e segue viagem. Se puder, faça o contrário: dedique a manhã a Lucca e deixe Pisa para o fim da tarde. Além da luz mais bonita para fotografar a Piazza dei Miracoli, você encontrará menos grupos de excursão e conseguirá apreciar o conjunto arquitetônico com muito mais tranquilidade. É um encerramento perfeito para uma viagem que, do início ao fim, mostrou que na Toscana vale sempre a pena desacelerar.


O que provar na Toscana


A gastronomia toscana é marcada pela simplicidade. Ao contrário de outras regiões italianas conhecidas por molhos elaborados ou massas recheadas, aqui o protagonismo está na qualidade dos ingredientes.


Pão, azeite, carnes, legumes da estação, queijos e vinhos formam a base de uma cozinha que pouco mudou ao longo dos séculos e que continua profundamente ligada ao campo. Mais do que buscar restaurantes sofisticados, vale a pena aproveitar a viagem para experimentar receitas tradicionais preparadas com ingredientes locais e sazonais.


Bisteccca alla fiorentina da Officina ddella Bistecca
Bisteccca alla fiorentina da Officina ddella Bistecca

Bistecca alla Fiorentina: prato mais emblemático da Toscana, é preparada com carne da raça Chianina, uma das mais antigas do mundo. O corte, alto e servido malpassado, é grelhado apenas com sal, valorizando o sabor da carne. Se estiver no Chianti, a Officina della Bistecca, de Dario Cecchini, oferece uma das experiências mais tradicionais da região.


Pici: originária da província de Siena, a pici é uma massa artesanal semelhante a um espaguete mais grosso, feita apenas com farinha e água. Costuma ser servida com molhos simples, como o aglione, preparado com um alho típico da Val d'Orcia, ou com ragù de javali (cinghiale), muito comum na região.



Pecorino Toscano e Pecorino di Pienza: produzido com leite de ovelha, o pecorino é um dos queijos mais tradicionais da Toscana. Em Pienza, considerada a capital do pecorino, vale provar diferentes tempos de maturação. Os queijos mais jovens são delicados e amanteigados, enquanto os maturados apresentam sabor mais intenso e textura firme. Muitas lojas oferecem degustações acompanhadas de mel, geleias ou compotas.


Pici com pecorino de Pienza e trufas
Pici com pecorino de Pienza e trufas

Em relação ao vinhos, cada uma das regiões visitadas ao longo deste roteiro possui um rótulo que conta parte da sua história.


Em Montalcino, o Brunello revela a elegância da Sangiovese Grosso. Em Montepulciano, o Vino Nobile destaca outra expressão da mesma variedade. Já no Chianti Classico, identificado pelo tradicional símbolo do Gallo Nero, a Sangiovese ganha um perfil mais fresco e vibrante. Degustar esses três rótulos ao longo da viagem é também uma forma de compreender como o território influencia cada vinho.





The Travel Notes


A Toscana costuma ser associada a vinhos, colinas e cidades medievais. E, de fato, tudo isso faz parte da viagem. Mas, depois de percorrê-la por estradas secundárias, caminhar por pequenas praças e conhecer produtores que há gerações cultivam a mesma terra, fica claro que sua maior riqueza está na forma como história, paisagem e estilo de vida convivem naturalmente. Foi isso que mais me marcou nas duas vezes em que estive aqui.


Se você está planejando essa viagem, minha recomendação é simples: reserve tempo. Cinco dias são suficientes para conhecer os principais destinos, mas, se puder, estenda a viagem por mais dois dias. A Toscana recompensa quem desacelera. Viajar de carro faz toda a diferença, permitindo percorrer estradas panorâmicas, descobrir pequenas vinícolas e fazer paradas espontâneas entre uma cidade e outra. Também vale organizar as reservas com antecedência, especialmente para vinícolas e restaurantes, que a maioria só funciona com agendamento prévio.


No fim, porém, o que você vai lembrar não será apenas dos monumentos, das taças de vinho ou dos restaurantes. Serão os pequenos momentos: a luz dourada atravessando os vinhedos no fim da tarde, uma conversa inesperada durante uma degustação, o silêncio de uma praça medieval pela manhã ou aquela estrada cercada de ciprestes que fez você parar o carro apenas para admirar a paisagem.


Boa viagem!



 
 
 

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