Florença em 3 dias: entre o Renascimento e a dolce vita
- Nathalia Braga
- 27 de abr.
- 8 min de leitura
Atualizado: 3 de ago.
Dos afrescos de Michelangelo às joalherias da Ponte Vecchio, dos cafés históricos às trattorias familiares, um roteiro para conhecer a cidade além dos cartões-postais.

A primeira vez que estive em Florença foi em 2016, quando havia acabado de me formar em Design de Moda. Naquele momento, ela representava muito mais do que um destino turístico: era o lugar onde arte, arquitetura, design e moda pareciam conversar o tempo todo. Passei dias caminhando entre o Duomo, a Piazza della Signoria, a Galleria degli Uffizi, o Palazzo Pitti e, principalmente, pela Via Tornabuoni, observando vitrines, edifícios históricos e tudo o que ajudou a construir a identidade do luxo italiano.
Quando voltei, anos depois, meu olhar era outro. Já não estava interessada apenas no Renascimento ou na história das grandes maisons. Queria descobrir Florença por meio do seu estilo de vida: dos cafés históricos, dos mercados, das trattorias e do ritmo elegante das ruas. A segunda viagem foi menos sobre conhecer monumentos e mais sobre viver a cidade.
Foi essa mudança de perspectiva que transformou completamente o meu roteiro. Hoje, vejo Florença como um lugar onde moda, arte e gastronomia fazem parte da mesma narrativa cultural. Caminhar da Piazza del Duomo até a Via Tornabuoni, atravessar a Ponte Vecchio em direção ao Oltrarno ou passar uma tarde na Officina Profumo-Farmaceutica di Santa Maria Novella dizem tanto sobre sua identidade quanto visitar alguns dos museus mais importantes do mundo.
Este roteiro de três dias reúne o melhor dessas duas experiências: a grandiosidade do berço do Renascimento e o prazer de descobrir uma cidade que se revela sem pressa, entre um espresso em um café centenário, um almoço em uma trattoria tradicional e uma caminhada às margens do rio Arno.
O ritmo deste roteiro
Florença é uma cidade para ser feita a pé. Diferente de outras grandes cidades italianas, suas principais atrações estão relativamente próximas umas das outras, e parte do encanto está justamente em caminhar entre elas sem pressa.
Este roteiro foi pensado para quem gosta de arte, arquitetura, gastronomia, moda e design, equilibrando os grandes clássicos com lugares que normalmente ficam fora dos roteiros mais apressados.
Onde faz sentido se hospedar
Depois de organizar os dois roteiros, a região onde eu escolheria ficar novamente é o centro histórico, especialmente entre o Duomo, a Piazza della Repubblica e a Piazza della Signoria.
Foi essa localização que mais facilitou explorar a cidade caminhando, voltar ao hotel durante a tarde, sair para jantar sem depender de carro e viver Florença no fim da noite, quando as ruas ficam especialmente bonitas.
Dia 1: O primeiro encontro com Florença
Comece o dia pela Piazza del Duomo, onde estão a Catedral de Santa Maria del Fiore, o Batistério e o Campanário de Giotto. Mesmo para quem já viu centenas de fotos, a primeira impressão da cúpula de Brunelleschi é inesquecível.

Depois, caminhe até a Piazza della Repubblica, uma das praças mais elegantes da cidade, e aproveite para fazer uma pausa no tradicional Caffè Gilli, um dos cafés históricos de Florença.
Na parte da tarde, visite a Officina Profumo-Farmaceutica di Santa Maria Novella. Fundada no século XIII, ela é considerada uma das perfumarias mais antigas do mundo e continua sendo um dos lugares mais bonitos da cidade. Mesmo que você não pretenda comprar perfumes ou cosméticos, vale entrar para conhecer sua arquitetura e história.
Termine o dia caminhando pelas ruas do centro histórico até a Piazza della Signoria, observando as fachadas renascentistas que transformam Florença em um verdadeiro museu a céu aberto.

Para o jantar, reserve uma mesa no 13 Gobbi. A trattoria é um clássico da cidade e serve um dos pratos mais famosos de Florença: o rigatoni al sugo finto. Foi um dos restaurantes que mais gostei na viagem e uma excelente forma de começar a experiência gastronômica na Toscana.
Dia 2: Mercados, arte e o charme do Oltrarno
Comece a manhã pelo Mercato Centrale, um dos melhores lugares para conhecer a gastronomia toscana além dos restaurantes. Entre bancas de queijos, massas frescas, embutidos e azeites, você encontra um mercado que continua fazendo parte da rotina dos moradores.
A poucos minutos dali está a Basílica de San Lorenzo e, ao lado, as Capelas dos Médici, onde estão algumas das esculturas mais importantes de Michelangelo.
Na hora do almoço, faça uma pausa no Cibrèo Caffè. O ambiente elegante e descontraído combina perfeitamente com a proposta do roteiro: desacelerar e aproveitar a gastronomia local sem pressa.

À tarde, visite a Galleria degli Uffizi, um dos museus mais importantes do mundo. Botticelli, Leonardo da Vinci, Michelangelo e Rafael fazem parte de um acervo que ajuda a entender por que Florença é considerada o berço do Renascimento. No meio da tarde, pare para um gelato na La Carraia, uma das minhas favoritas da cidade.
Ao sair dos Uffizi, atravesse a Ponte Vecchio, o cartão-postal mais famoso de Florença. Construída no século XIV sobre o rio Arno, ela é uma das poucas pontes medievais que sobreviveram à Segunda Guerra Mundial e se destaca pelas pequenas construções suspensas sobre suas laterais.
Um detalhe curioso é que, desde o século XVI, a ponte abriga exclusivamente joalherias e relojoarias. Antigamente, o espaço era ocupado por açougues e peixarias, mas o grão-duque Ferdinando I de Médici determinou que esses comerciantes fossem substituídos por ourives, tornando a ponte um símbolo da alta joalheria florentina. Até hoje, caminhar por ali é como percorrer uma vitrine a céu aberto, repleta de peças artesanais, ouro e pedras preciosas.

Do outro lado do Arno começa o Oltrarno, um dos bairros mais charmosos de Florença. Aproveite para conhecer o Palazzo Pitti e caminhar pelos Jardins de Boboli antes de terminar o dia explorando suas pequenas ruas, ateliês, antiquários e cafés.
Para o jantar na região de Oltrarno, a Trattoria Camillo representa exatamente o tipo de restaurante que gosto de descobrir em viagens. Frequentada por moradores e conhecida pelo cardápio que muda conforme a estação, foi um dos lugares onde tive a sensação de estar vivendo uma Florença muito mais local do que turística.
Dia 3: Moda, design e os sabores de Florença
Minha primeira viagem a Florença foi guiada pela moda. Recém formada na área, queria entender por que a cidade era considerada um dos berços do design italiano. Oito anos depois, voltar à Via Tornabuoni teve um significado completamente diferente. As vitrines continuam impressionantes, mas hoje gosto muito mais de observar a história que existe por trás delas.
Passe a manhã caminhando pela rua mais elegante de Florença, onde estão boutiques de marcas como Gucci, Ferragamo e Pucci. Se moda faz parte dos seus interesses, aproveite para visitar o Museo Gucci, na Piazza della Signoria.

Seguir caminhando até a Galleria dell’Accademia, onde está o David de Michelangelo.
Mesmo quem acha que já conhece a escultura por fotos costuma ficar impressionado ao vê-la pessoalmente. A visitação é com horário marcado, por ser uma atração muito popular, é recomendado comprar o ingresso com bastante antecedência.
Depois caminhe pelas ruas do centro histórico sem roteiro rígido, entrando em pequenas livrarias, lojas de papelaria, perfumarias e cafés. Florença recompensa quem desacelera.
Para o almoço, escolha um restaurante próximo à Piazza Santissima Annunziata e, no meio da tarde, faça uma pausa na Strega Nocciola, excelente para um gelato mais artesanal.
No fim da tarde, suba até o Piazzale Michelangelo. A vista panorâmica da cidade ao pôr do sol é uma das imagens que mais permanecem na memória depois da viagem.

Para encerrar a viagem, reserve uma mesa no Buca Mario. Instalado em um edifício histórico próximo à Santa Maria Novella, o restaurante reúne tudo o que espero de uma boa despedida italiana: ambiente clássico, serviço impecável e uma cozinha toscana tradicional. Recomendo provar a lasanha, um dos pratos mais pedidos da casa. De sobremesa, os morangos com chantilly que são igualmente populares. Foi, sem dúvida, o jantar mais especial da viagem.
O que provar em Florença
Assim como acontece em outras regiões da Itália, a culinária florentina é profundamente ligada à sua história e aos ingredientes produzidos na Toscana. Os pratos valorizam preparos simples, carnes de excelente qualidade, massas frescas e receitas transmitidas há gerações. Mais do que comer bem, experimentar a gastronomia local faz parte da experiência de conhecer a cidade.

Bistecca alla Fiorentina: grande clássico da culinária florentina para os amantes de carne. A bistecca é um corte alto, semelhante ao T-bone, tradicionalmente preparado com carne da raça Chianina e grelhado sobre brasas bem quentes. A receita leva apenas sal, azeite e pimenta, permitindo que o sabor da carne seja o protagonista. O ponto ideal é malpassado, com interior macio e suculento.
Pappardelle al Cinghiale: uma das massas mais tradicionais da Toscana. As largas tiras de pappardelle são servidas com um molho de javali (cinghiale), cozido lentamente em vinho tinto, tomate, ervas e legumes. O resultado é um prato intenso e reconfortante, muito comum nos restaurantes da região.
Trufas: a Toscana é uma das principais regiões produtoras de trufas da Itália, especialmente durante o outono. Em Florença, é fácil encontrar massas, risotos e carnes finalizados com trufas frescas ou laminadas na hora, um ingrediente que se tornou uma das marcas da gastronomia local.
O ritual do café
Assim como em outras cidades italianas, tomar um café em Florença vai muito além da bebida. Os cafés históricos fazem parte da vida cotidiana dos florentinos há mais de um século e são lugares perfeitos para fazer uma pausa entre uma atração e outra, observando o movimento da cidade.
A Piazza della Repubblica concentra alguns dos cafés históricos mais emblemáticos de Florença, como o Gilli, o Paszkowski e o Caffè Concerto Repubblica. Desde o século XIX, esses estabelecimentos são ponto de encontro de escritores, artistas e intelectuais e continuam sendo um dos lugares mais agradáveis para sentir o ritmo da cidade. Se tiver tempo para apenas uma pausa durante a viagem, faça dela aqui.
Caffè Gilli: fundado em 1733, é o café mais antigo de Florença e um dos mais tradicionais da Itália. Combina salões elegantes, confeitaria clássica e mesas ao ar livre, sendo um dos melhores lugares para experimentar um espresso ou um cappuccino enquanto observa o vai e vem da praça.
Scudieri: em frente ao Duomo, o Scudieri é uma excelente opção para o café da manhã ou uma pausa durante o roteiro. Além dos tradicionais cafés italianos, é conhecido pelos doces, folhados e pâtisseries servidos diariamente.
Essa é uma daquelas experiências que mostram que, em Florença, até um simples espresso pode se transformar em parte da viagem.
When in Italy: gelato
Nenhuma viagem à Itália está completa sem uma pausa para um bom gelato. Em Florença, as melhores gelaterias valorizam ingredientes naturais e produção artesanal, com sabores que mudam conforme a estação. Entre uma igreja, um museu e outra caminhada pelo centro histórico, aproveite para incluir pelo menos uma parada no roteiro.
La Carraia: próxima à Ponte alla Carraia, é uma das gelaterias mais populares de Florença entre moradores e visitantes. Os sabores são cremosos, as porções generosas e a fila costuma valer a pena. O pistache e o chocolate amargo estão entre os mais pedidos.
Strega Nocciola: conhecida pela produção artesanal e pelo uso de ingredientes naturais, oferece desde sabores tradicionais até combinações sazonais. O creme de avelã (nocciola), que dá nome à gelateria, é um dos destaques da casa.
Edoardo: localizada ao lado da Piazza del Duomo, a Edoardo se destaca pela produção orgânica e pelos ingredientes selecionados.
The Travel Notes
Voltei a Florença oito anos depois da minha primeira visita e percebi que quem havia mudado era eu. Em 2016, caminhava pela cidade fascinada pelas vitrines, pela história das grandes maisons e pela herança do design italiano. Em 2024, encontrei outra Florença: aquela dos almoços demorados, das pequenas trattorias, dos cafés históricos e do ritmo tranquilo das ruas além dos monumentos. Talvez seja isso que mais gosto nesta cidade. Ela permite voltar muitas vezes e, ainda assim, descobrir uma versão completamente diferente dela e de nós mesmos.



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